Pioneira no serviço militar feminino deve se tornar primeira general do Exército; conheça Cláudia Cacho

Médica ingressou na Força em 1996, quando Exército abriu vagas para médicas e outras profissionais de saúde. Indicada ao generalato, ela diz ter se sentido 'honrada e reconhecida'.

Cláudia Lima Gusmão Cacho pode ser a primeira general do Exército Brasileiro. — Foto: Ana Lídia Araújo/g1 DF

Em 1996, pela primeira vez, o Exército Brasileiro instituiu o serviço militar feminino voluntário na área da saúde. Foram 290 médicas, dentistas, farmacêuticas, veterinárias e enfermeiras que ingressaram na Força Terrestre.

Uma delas era a pernambucana Cláudia Lima Gusmão Cacho.

Trinta anos depois de participar desse primeiro movimento de abertura às mulheres, a coronel médica pode se tornar um marco na história da instituição.

O nome da coronel médica foi indicado pelo Alto Comando do Exército para promoção ao posto de general de brigada. Se confirmada, Cláudia será a primeira mulher a alcançar o generalato no Exército Brasileiro.

Atualmente subdiretora do Hospital Militar de Área de Brasília, Claudia deve assumir a direção da unidade após a promoção.

Ela aguarda a formalização da nomeação, prevista para ser publicada no Diário Oficial da União em 31 de março.

“Me senti muito honrada, muito reconhecida. Porque não é um trabalho de um dia, dois. São 30 anos dentro da força. Representatividade também. São palavras que me vêm a cabeça”, disse a coronel.

‘Não fui promovida por ser mulher’

A cerimônia de entrega da espada aos novos generais é considerada um dos principais ritos de passagem da carreira militar e simboliza o reconhecimento, a liderança e o compromisso dos oficiais promovidos à alta cúpula. Caso a promoção seja confirmada, Cláudia será a única mulher entre os novos generais.

“Vou estar lá representando sim as nossas mulheres. E sempre lembrando: eu não fui promovida porque eu sou mulher. Eu fui promovida por conta de uma trajetória em que cumpri os requisitos e é um reconhecimento, mérito ao trabalho”, destaca a coronel.

E sobre o novo desafio, ela prefere falar em responsabilidade – e não em pressão.

“Eu não chamo como peso. Cada vez que a gente é promovido, a gente ganha mais responsabilidades, mas a Força vai nos preparando para isso. Desde tenente, como chefe de uma sessão de pediatria de um hospital, a gente vai se preparando aos poucos, adquirindo experiência nos cargos e nas funções.”

Pioneirismo

Cláudia entrou no Exército aos 27 anos. Formada em medicina pela Universidade de Pernambuco (UPE) aos 22 e já especializada em pediatria, ela soube da oportunidade para mulheres da área de saúde quase por acaso, por meio de um vizinho militar. Na época, ela morava em Goiânia.

Naquele tempo, o Exército ainda era predominantemente masculino.

“Mas era um ambiente muito sério, ético, em que sempre encontrei respeito à dignidade como mulher. Então aproveitei. Fomos muito bem recebidas quando entramos”, conta Cláudia.

No Exército, a primeira turma de formação envolvendo mulheres foi aberta em 1992, na Escola de Administração, com 49 alunas. Quatro anos depois, em 1996, a Força Terrestre criou o serviço militar feminino voluntário para profissionais de saúde — quando Cláudia iniciou a carreira.

Caminho até o generalato

Inicialmente temporária, Cláudia decidiu prestar concurso para seguir carreira militar após se identificar com a instituição.

A possibilidade de chegar ao generalato nunca foi vista como impossível. Para ela, sempre foi o caminho natural — é como se, no fundo, o título sempre estivesse esperando por ela, aguardando apenas a hora certa.

“Quando nós fizemos esse concurso, sabíamos que existia a possibilidade de chegar ao generalato, porque chegar ao generalato é uma trajetória. Então, a partir do momento que passei a ser militar de carreira, e durante esse tempo fui adquirindo os critérios para chegar a essa promoção, sabia que existia essa possibilidade. Podia acontecer ou não. Aconteceu”, afirma.

Ao longo da carreira de quase 30 anos, Cláudia serviu em diversos estados do país: Rio de Janeiro, Rondônia, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Mato Grosso do Sul, Goiás e no Distrito Federal.

‘Atributos que não têm gênero’

No mesmo ano em que Cláudia pode se tornar a primeira general do Exército, a instituição também incorporou as primeiras mulheres no serviço militar inicial como soldados — 1.467 pioneiras em 13 estados e no Distrito Federal.

Até então, o posto de soldado não existia para mulhers. Elas ingressavam apenas para as escolas de formação de carreira, por concurso público, ou como militares temporárias por seleção curricular.

A cerimônia de incorporação em Brasília foi no primeiro dia útil de março, o mês da mulher. Segundo o Exército, durante o primeiro semestre de 2025, cerca de 33 mil jovens se alistaram.

No ano passado, pela primeira vez, seis mulheres foram promovidas à graduação de subtenente, o posto mais alto entre as praças.

Ao falar com jovens que pensam em seguir carreira militar, ela destaca o caráter da profissão. Para Claúdia, o primeiro passo é acreditar na própria capacidade.

“A profissão militar é muito nobre e é desafiadora também. […] O exército é composto de profissionais competentes, responsáveis, dedicados e são atributos que não têm gênero”, aconselha.

A coronel também destaca a importância da preparação física, mental e emocional e reforça valores que considera fundamentais na carreira militar: “Lealdade, camaradagem, espírito de corpo, saber trabalhar em equipe, isso é fundamental.”

Fonte: G1

TAGGED:
Compartilhe esta notícia
Deixe um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *