Carlo Ancelotti já viu troféus, birras e revoluções táticas suficientes para saber que o problema do Brasil na Copa do Mundo não é a falta de talento – é o que acontece quando esse talento começa a tratar cada passe errado como uma emergência nacional.

A menos de um mês do início da Copa do Mundo, o técnico italiano disse que a seleção brasileira precisa aprender a transformar a pressão em combustível na tentativa de acabar com uma espera de 24 anos para levantar o troféu novamente.
“O que eu notei este ano, para ser honesto, é que há muita pressão; há muita pressão sobre os jogadores”, afirmou Ancelotti à Reuters em uma entrevista na sede da Confederação Brasileira de Futebol, no Rio de Janeiro, na terça-feira (12).
“O que eu acho é que os jogadores também colocam muita pressão sobre si mesmos, às vezes até demais. Então, a pressão e a preocupação superam a alegria, a energia que os brasileiros têm, a criatividade que os brasileiros têm.”
As recentes eliminações do Brasil na Copa do Mundo têm sido frequentemente criticadas tanto pela fragilidade emocional quanto por falhas táticas, e Ancelotti disse ter visto sinais dessa carga até mesmo em amistosos.
“Vi isso em alguns amistosos… um erro de um companheiro de equipe em um jogo amistoso parece uma tragédia”, disse ele.
“Precisamos estabelecer uma rotina para evitar tudo isso, porque a pressão é obviamente um fator muito importante. Gerenciar bem a pressão significa ter mais motivação e mais camaradagem, porque você pode compartilhar a pressão. Assim, ela pesa menos sobre você.”
Para Ancelotti, o antídoto não é privar o Brasil de sua identidade, mas dar a ele uma estrutura robusta o suficiente para sobreviver à intensidade do futebol moderno. A velha questão – o Brasil deve brilhar ou simplesmente vencer? – não é uma escolha que ele aceita.
“O que os jogadores brasileiros e o futebol brasileiro não podem perder é sua maior qualidade: criatividade, alegria e energia”, declarou.
Energia do Carnaval
Ancelotti disse que encontrou a versão mais clara do que ele quer do Brasil não em um campo, mas no Carnaval.
“Foi meu primeiro Carnaval aqui este ano”, afirmou ele. “Percebi muita alegria, muita energia, porque as pessoas dançavam até o Sol raiar, mas também um grande comprometimento de todos em uma festa popular da qual todos se sentem parte.”
“Se você for assistir ao desfile aqui no Rio, tudo é perfeitamente organizado – o tempo, a música, tudo é perfeito. Essas são características do povo brasileiro que eu vi no Carnaval e que quero levar para a seleção: alegria, energia, organização, comprometimento, atitude.”
O italiano rejeitou a ideia de que o Brasil tenha perdido sua aura, dizendo que sua mística futebolística construída ao longo de gerações não poderia desaparecer por causa das decepções recentes.
“O Brasil tem algo especial, e sempre terá”, disse. “O Brasil tem, e sempre teve, a capacidade de produzir grandes talentos. Mesmo agora, este país produz mais talentos do que outros países.”
No entanto, Ancelotti afirma que o Brasil tem sido mais lento do que alguns países para se adaptar a um jogo cada vez mais moldado por intensidade, estrutura e trabalho coletivo.
“O Brasil tem as mesmas qualidades de sempre, mas é preciso apoiar essa criatividade com organização, comprometimento e atitude”, disse o técnico.
“O talento é importante, mas para vencer o talento, você precisa de organização. E sim, nós vamos fazer isso acontecer, porque você pode ensinar organização, mas não pode ensinar talento.”
Ancelotti também ofereceu sua própria definição de “jogo bonito”.
“Pode ser uma habilidade, mas também pode ser um trabalho em equipe, um compromisso coletivo, uma atitude espetacular da equipe quando está com a posse de bola e todos trabalhando duro”, declarou ele com um brilho claro nos olhos.
O Brasil pode não chegar como favorito, mas Ancelotti disse estar confortável com isso.
“Eu gosto disso”, afirmou ele sobre o fato de o Brasil ser visto como um azarão. “Acho que esta é uma Copa do Mundo em que não há um favorito claro, porque todas as equipes têm seus problemas.”
“Não existe uma equipe perfeita. Acredito que a equipe mais resiliente vencerá a Copa do Mundo.”
E se o Brasil quiser recuperar qualquer status que possa ter perdido, Ancelotti tem a resposta: “Só há uma maneira de recuperar a hierarquia no futebol, que é ganhar a Copa do Mundo.”
Fonte: Agência Brasil

